A quadragésima sexta edição do Dakar ganha vida, com os participantes que hoje enfrentaram a terceira das doze etapas previstas no programa, registando contudo o grave acidente ocorrido com Carles Falcon. Um episódio que reafirma a essência (riscos, crueldade e crueldade) do Rally Raid mais fascinante do planeta. Um desafio a favor e contra si mesmo, para os poucos que ao volante ou numa moto decidem mergulhar nas extensões infinitas de areia, terra, lama e pedras. Indo em busca da glória ou, porque não, de façanhas autênticas. Como o de uma tripulação totalmente francesa que desafiou o deserto no início dos anos 80 com… quatro scooters Piaggio!
Piaggio no Paris-Dakar com a Vespa
Isso mesmo. Entre as inúmeras histórias do então Dakar africano (desde 2020 que se realiza no Médio Oriente) está também a de quatro Vespas. Em 1980, no alvorecer da corrida no deserto que ainda levava o nome de Paris-Dakar, as scooters surgiram na largada ao lado dos mísseis Yamaha XT 500. Os mesmos que mais tarde monopolizariam o cenário daquela edição, com o francês Cyril Neveu ao todo, colocando quatro pilotos nos quatro primeiros lugares da classificação geral. A ideia maluca nasceu do ex-piloto de rali Jean-François Piot, chefe da atividade desportiva da Piaggio, que imediatamente criou um projeto tão louco quanto ambicioso.
O equipamento Piaggio
“Atravessar o deserto e alguns percursos africanos numa Vespa já é uma aventura delicada, mas fazê-lo em corrida, aliás ombro a ombro com outros concorrentes que possuem veículos mais adequados a este tipo de competição, é o verdadeiro desafio da Vespa”. Com estas palavras o próprio Piot lançou o desafio, não deixando nada ao acaso. Para os pilotos a escolha recaiu sobre os irmãos Yvan (piloto de testes da Piaggio) e Bernard Tcherniavsky, Marc Simonot (vice-campeão de Enduro) e Bernard Neimer. Na frente técnica optamos pelo P200E (a versão mais avançada da época), de cor azul com tanques de 25 litros, pneus protuberantes e cinco assistências Land Lover (uma das quais confiada ao múltiplo vencedor de Le Mans, Henri Pescarolo). Um desdobramento de forças sem precedentes, com o objetivo implícito de valorizar o produto simbólico da Piaggio.
Dores de cabeça no meio do deserto
E foi assim que no dia 1 de Janeiro de 1980, por ocasião do tradicional prólogo de Versalhes, entre os mais de 200 participantes estavam também aqueles quatro jovens (corajosos) pilotos franceses conduzindo os seus respectivos P200Es, especialmente preparados e modificados com diversas características técnicas. : só faltou começar a jogar um jogo que parecia impossível desde o início. Durante a corrida, os quatro aventureiros encontraram muitas dificuldades, incluindo quedas, acontecimentos inesperados, furos e problemas mecânicos, mas o cronómetro foi, naturalmente, a última coisa que lhes passou pela cabeça. Eles tiveram que se preocupar mais em chegar à linha de chegada a tempo antes… do início da próxima etapa, caso contrário teriam sido excluídos do Dakar conforme exigido pelos regulamentos.
Façanha histórica
No final, a sorte e a audácia fizeram com que a Vespa #8 conduzida por Simonot fosse a única a completar a corrida. Mesmo sem tempo após 10.000 quilômetros (4.059 dos quais em 11 etapas especiais), o francês cruzou a linha de chegada em seu desgastado P200E, mas em boas condições de funcionamento. Provando para o mundo inteiro que cruzar e superar o deserto no ataque mais difícil, ainda mais se usar o icônico “lambreta” Italiano, certamente era possível. Um feito ainda mais precioso pelos números: apenas 25 motos dos 90 lotes chegaram ao Dakar. Diz-se que as vendas da Piaggio em França aumentaram 160%, perdurando até aos dias de hoje. Na verdade, uma lenda mais viva do que nunca graças àquela ideia maluca (mas vencedora) de um visionário como Jean-François Piot.